Vivemos mais, ganhamos menos e gastamos mais com a saúde

O envelhecimento da população está associado a um aumento dos custos de saúde em todo o mundo. Em qualquer época da vida os gastos com medicamentos fazem diferença no orçamento familiar, mas na população idosa atuam como componente prioritário das despesas domiciliares. Exames, medicamentos, planos de saúde e tratamentos médicos consomem a renda familiar e não há como cortá-los. Há situações em que os custos com saúde chegam a ter uma participação de quase 60% do orçamento familiar. Segundo pesquisas, nesta população o segundo maior gasto é com alimentação (20% da renda) e depois com a habitação (15,2%).

Obviamente existem desigualdades socioeconômicas, de idade e de gênero no comprometimento de renda com a compra de medicamentos, com piores condições para os mais pobres, os de maior idade e para as mulheres. Mas considere que a prevalência do uso de medicamentos na população acima de 60 anos é de 80% e a prevalência da polifarmacia (definida arbitrariamente pelo uso de 4 ou mais medicamentos) na literatura varia de 31,5% a 76,5% (achei até que era maior) e veja o impacto que isto representa.

De acordo com a Pesquisa Nacional de Domicílios realizada em 2012, 64,2% pessoas acima dos 60 anos eram consideradas as referências em suas famílias tendo como principal fonte de renda a aposentadoria ou pensão (66,2%), sendo que para o grupo acima de 65 anos a participação dessa fonte de renda aumenta para 74,7%. Para piorar, o SPC (Serviço de Proteção ao Crédito) e a CNDL (Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas), conduziram um estudo junto a 1.500 moradores das capitais brasileiras com o objetivo de medir os impactos das despesas com saúde no bolso do brasileiro que revela que 69,7% não possuem plano de saúde, seja ele individual ou empresarial, percentual que é ainda maior entre pessoas das classes C, D e E (77,0%). Quando essas pessoas precisam de atendimento, 44,8% utilizam o SUS (Sistema Único de Saúde) —principalmente os entrevistados das classes C, D e E (51,4%), e o restante (24,9%) prefere pagar as despesas com dinheiro próprio.

O estudo mostra ainda que quatro em cada dez entrevistados (39,5%) já tiveram plano de saúde, mas atualmente não possuem mais. Isso ocorreu por vários motivos: 32,3% alegam ter saído da empresa em que trabalhavam, que era a responsável pelo pagamento do plano; 25,3% porque não tinham mais condições de pagar as mensalidades, e 12,6% por acharem que por utilizarem pouco não valia a pena mantê-lo. Mesmo assim, um levantamento do Datafolha de 2018 aponta que somente a casa própria para os entrevistados é mais importante que ter um plano de saúde para viver bem. Metade cita a compra da moradia e 26% o plano de saúde como conquistas mais valorizadas. Para 17% dos entrevistados, essa conquista seria a chegada ao curso superior. Viajar (7%) e ter um carro (menos de 1%) aparecem em seguida.

O fato é que a renda é baixa e poucos têm plano de saúde, sobretudo na fase da vida em que mais é necessário. Existem alternativas? Os meios de adquirir os medicamentos variam de acordo com o poder socioeconômico das pessoas. Os idosos da classe socioeconômica A adquirem seus medicamentos, principalmente, em estabelecimentos privados (e preferem os medicamentos referência —erroneamente). Já as classes C e E têm acesso direto a medicamentos gratuitos distribuídos pelo sistema público brasileiro de saúde, embora a proporção de pessoas que tenham que comprar medicamentos após tentativa fracassada de obtenção pelo SUS não seja pequena (estima-se 11%).

Considerada uma ótima alternativa, o Programa Farmácia Popular, criado pelo Governo Federal em 2004, tem como objetivo subsidiar medicamentos para algumas das principais doenças. Além de redes próprias, o programa possui parcerias com farmácias e drogarias privadas espalhadas por todo o país. É tido como um dos programas de saúde pública mais bem-sucedidos do país, pois oferece uma lista de mais de 1.000 medicamentos diferentes sendo muitos gratuitos ou com grande desconto. Pesquisar em varias farmácias e pedir desconto na medicação é sempre preciso.

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